Odeio essa tensão que acontece quando estamos muito perto. Odeio pensar que você vai fazer algo que não vai. Odeio querer que você me beije de surpresa, odeio que você não faça isso, e odeio odiar que você não faça isso. Odeio filtrar as palavras quando converso com você. Odeio me arrepender do que falo, odeio que você seja uma rara pessoa que provoca isso em mim. Odeio sentir meu coração acelerar só de sentir o seu perfume, odeio reconhecê-lo em qualquer lugar. Odeio lembrar de você nas coisas mais ridículas. Odeio perder a concentração porque simplesmente penso em seu sorriso. Odeio pensar em você. Odeio pensar em você dessa maneira. Odeio sentir o que sinto quando penso em você dessa maneira. Odeio sentir. Odeio pensar.
Eu não sou aquilo que você procura e definitivamente você não faz o meu tipo.
Somos bons amigos, ótimos amigos, porém algo me faz achar que não é simplesmente admiração e carinho o que sinto por você. Coisa estranha esse clima que fica quando a gente conversa, parece que tudo ao redor embaça e a nossa conversa passa a ser o centro de tudo. O que faz mover tudo ao redor. As besteiras e sorrisos são o que completam a noite e o que clareia o dia. Tudo está ruim, na pior das hipóteses... E vem você. Bagunçar as borboletas em meu estômago, que dançam agora violentamente, de uma hora pra outra. Elas estavam adormecidas, não estavam? De repente não sabia sequer que elas existiam. E por que passar por um filtro tudo o que falarei, meu Deus? Mesmo sabendo que não se importa em ouvir minhas bobagens. E essa música? Tem uma música tocando, não tem? Ou as pessoas de repente pararam para que nós pudéssemos conversar em paz? Estranho, muito estranho.
- Tudo bem? – cumprimentou-a beijando-lhe ternamente no rosto, como de praxe. E ela, de novo, sentiu aquele formigamento estranho no local, junto com um contentamento repentino e, em seguida, súbito descontentamento por ter sido tão pouco e tão rápido o contato com os lábios dele em seu rosto. Como queria que aquela sensação durasse para sempre ou pelo menos que pudesse senti-la em outro canto... Hm, como seria aquela sensação se o contato fosse na boca? Não, não iria beijar seu amigo.
- Cruzes!
Ela se deparou com dois olhos confusos e engraçados.
- Hm, er, digo, está tudo bem, hehe... E você?
- Tudo. – uma resposta que saiu mais como riso que tudo. Aquele sorriso de pura incredulidade frente aos devaneios dela.
Hm...
- Então, vamos começar?
- Ah, vamos, vamos...
- Certo...
Ambos sentam lado a lado no sofá. Ele saca uma caneta e um caderno. Tira a tampa da caneta com a boca.
- Vohmxê começa.
- Eu? Por que eu, hein?
Ele sorriu de novo, divertido.
- Tá bom, eu começo.
Então ele começou a falar sobre seu projeto, mas a cabeça dela estava dividida entre ouvir realmente o que ele estava falando ou imaginar eles dois em situações constrangedoras e comprometedoras.
- Menina. Pára. Ouve que eu não vou falar de novo. É o seguinte...
- Aham... – ela acenava afirmativamente a cabeça, agora prestando atenção até nas vírgulas que haviam na frase dele. E então voltou à realidade e começou a expor as opiniões que estava guardando para aquele momento.
No fim do dia, aquele mesmo beijo no rosto e um ‘tchau’ rápido, típico dele, marcaram uma despedida. E ela novamente voltou a fantasiar com as sensações e as contradições de uma amizade colorida. Não beijaria seu amigo, que loucura, que horror! Ainda mais por serem tão diferentes, meu Deus, que coisa! Mas bem que queria... Só um pouquinho, durante alguns segundos...
Enquanto você ajeita esses óculos de armação barata eu me pergunto se alguma vez a sua alma já foi tão presa a alguma outra quanto a minha a tua. O que você tanto vê nesse horizonte laranja que eu não consigo?
- Eu quero ir embora.
Não foi um pedido, embora meus olhos pareçam suplicantes e as minhas mãos enlacem seu pescoço nesse exato momento.
- Então vá.
A minha gargalhada quebra completamente o silêncio que preza tanto, como você pode ser tão absurdo? E como eu posso ser tão acessível? Só para você. Eu olho em teus olhos, e penso que deveria simplesmente te deixar, para sempre, numa esquina qualquer, até que a esquina de outro alguém seja a mesma que a tua. Penso que eu deveria ser menos patética e procurar de verdade um alguém para mim. Mas não sou livre, como pensa, nunca fui. Toda dor, toda distância e todo instante vividos desde que nossos destinos se cruzaram, foram o polimento necessário para tornar as minhas correntes tão fortes e brilhantes quanto estas estrelas, que brotam pela primeira vez no céu, hoje. Você quer me ignorar, mas não consegue. Quando finalmente resolvo sair desse banco de praça medíocre, suas mãos ágeis envolvem minha cintura e me puxam para o círculo confortador de seus braços. E tudo começa outra vez...
Se você não for alguém pra mim, eu juro, para sempre quero ser o seu ninguém.