- Doida.
Sorrio, em resposta.
Enquanto você ajeita esses óculos de armação barata eu me pergunto se alguma vez a sua alma já foi tão presa a alguma outra quanto a minha a tua. O que você tanto vê nesse horizonte laranja que eu não consigo?
- Eu quero ir embora.
Não foi um pedido, embora meus olhos pareçam suplicantes e as minhas mãos enlacem seu pescoço nesse exato momento.
- Então vá.
A minha gargalhada quebra completamente o silêncio que preza tanto, como você pode ser tão absurdo? E como eu posso ser tão acessível? Só para você. Eu olho em teus olhos, e penso que deveria simplesmente te deixar, para sempre, numa esquina qualquer, até que a esquina de outro alguém seja a mesma que a tua. Penso que eu deveria ser menos patética e procurar de verdade um alguém para mim. Mas não sou livre, como pensa, nunca fui. Toda dor, toda distância e todo instante vividos desde que nossos destinos se cruzaram, foram o polimento necessário para tornar as minhas correntes tão fortes e brilhantes quanto estas estrelas, que brotam pela primeira vez no céu, hoje. Você quer me ignorar, mas não consegue. Quando finalmente resolvo sair desse banco de praça medíocre, suas mãos ágeis envolvem minha cintura e me puxam para o círculo confortador de seus braços. E tudo começa outra vez...
Se você não for alguém pra mim, eu juro, para sempre quero ser o seu ninguém.
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